Ensinar a ler é ensinar a gostar de ler. A mensagem do educador Paulo Freire, morto em 1997, ainda não foi entendida por muitos ad...
Ensinar a ler é ensinar a gostar de ler. A mensagem do educador Paulo
Freire, morto em 1997, ainda não foi entendida por muitos adultos. A
inserção do processo de leitura, ao invés de ser atrativa, é dolorosa
para algumas crianças que não têm chance de enxergar a magia do livro.
Hoje, 18 de abril, Dia Nacional do Livro Infantil e aniversário de
Monteiro Lobato, O POVO reflete sobre os mecanismos
para incentivar a leitura entre os pequenos e sobre os benefícios
adquiridos ao se tornar um leitor. Levantamento da Fundação Itaú Social,
utilizando artigos científicos publicados desde a década de 1990,
mostrou que o estímulo a leitura durante a primeira infância reduz os
índices de repetência escolar.
Outros benefícios de ser um
leitor já são conhecidos: enriquecimento de vocabulário, aproximação da
família, fluência na escrita. No documento “Impacto da leitura feita
pelo adulto para a criança, na primeira infância, para o desenvolvimento
do indivíduo”, entretanto, a Fundação comprova que a leitura influencia
também na motivação acadêmica e nos anos de escolaridade que a pessoa
terá em sua vida.
Observar os pais ou os irmãos lendo, pontuam
especialistas, é um passo para despertar o interesse. Cláudia Sintoni,
coordenadora de Mobilização Social da Fundação, explica que o processo
de aquisição da leitura pode ser incentivado desde a gestação. “O
vínculo é um ato de amor. Pode começar com a leitura de um livro, que
certamente vai conter palavras e expressões desconhecidas para a
criança, favorecendo o repertório de vocabulário”, explica.
Ela
pondera que um momento familiar saudável com leitura compartilhada
fortalece a afetividade. “Estamos apresentando o objeto livro e
mostrando para que ele serve. Aquilo tem fascínio e encantamento”,
aponta Cláudia Sintoni.
A contadora de histórias Josy Maria
Correia acredita, sobretudo, na ternura do ato de narrar. Para ela,
quando um adulto conta uma história, os benefícios vão além da aquisição
de leitura. “Mesmo que não exista um livro em si como objeto, elas
devem ouvir histórias”. Josy publicou o primeiro livro infantil em 2012.
“Elas são exigentes. Não adianta escrever um texto infantiloide, não
adianta subestimar a produção criativa da criança”, diz.
O
chamado “encantamento” é a principal estratégia da arte-educadora Luana
Oliveira, que coordena o Clubinho da Leitura, no Bom Jardim. O projeto
funciona desde 2009 com contação de histórias, teatro e leitura. “Não
adianta impor. No início, eu escolhia os livros. Mas eles gostam de
escolher e de serem incentivados nas leituras. Agora, leem sozinhos”,
afirma. De tanto aprender e compartilhar histórias, as 25 crianças
atendidas começaram a escrever poesias. “O referencial de leitura é
pequeno, pois o bairro é carente e alguns pais não sabem ler. Mas,
acontece o movimento inverso. Dos filhos levando o gosto pela leitura e
incentivam os pais”, diz. Com o Centro Cultural Bom Jardim em reforma,
ela busca um local para abrigar o Clubinho.
Tecnologia
Como
justificativa para não incentivar a leitura, pais se apoiam nos tablets
e telefones - que seriam os “vilões”. O fato, explica Cláudia Sintoni,
é que a tecnologia é mais um mecanismo de apresentação das histórias.
“O adulto apresenta o universo da leitura para a criança e isso pode
acontecer com qualquer suporte. Claro, o papel é um bem cultural ao qual
a criança deve ter acesso, mas não podemos fechar os olhos para as
tecnologias. O mundo está aí. E as crianças também”, pontua.
Como incentivar?
Especialistas ouvidos pelo O POVO dão dicas para incentivar a leitura entre as crianças:
1)
Deixe a criança entrar em contato com os livros, brincando e
manuseando. Editoras oferecem publicações com material apropriado para
bebês, como os livros de plástico feito de materiais maleáveis e
coloridos.
2) Deixe livros disponíveis pela
casa. Quando as publicações estão inacessíveis, pode existir sentimento
de proibição. Estantes baixas e baús são boas opções.
3) Não leia como se estivesse conversando com um adulto. Ela precisa de intensidade nas palavras, ênfases.
4) Não basta ler para as crianças. É preciso conversar sobre as histórias.
5)
Ao conversar com a criança sobre o livro respeite a opinião dela. Não
julgue os comentários como “certos” ou “errados”. A criança precisa de
apoio e respeito.
6) Leve a criança para
feiras de livros, bibliotecas, bancas de jornal e livrarias. Não como
obrigação, mas como um momento saudável de diversão em família.
7)
Ofereça livros de acordo com a faixa etária e com o nível de leitura.
Durante a primeira infância (0-6 anos), por exemplo, podem ser
oferecidos livros que possuam somente imagens.
8)
Para as crianças que estão se alfabetizando podem ser inseridos
jornais, revistas e histórias em quadrinho no processo de leitura.
9)
Os pais podem continuar lendo para os filhos mesmo após a
alfabetização. As crianças precisam de apoio para continuar no processo.
10) Com o amadurecimento das leituras, faça a criança conhecer diferentes gêneros, como o conto e a poesia.
